October 26, 2005

MAU TEMPO NA EUROPA

MAU TEMPO NA EUROPA

Será que as inundações, os temporais e as secas que se fazem sentir na Europa vieram para ficar? Os peritos dizem  que sim... e que podem piorar

Por  James O. Jackson
    

Que mês de mau tempo! Que ano! Rios revoltos em Itália. Temporais em França. Incêndios na Grécia. Água por todo o lado no País de Gales. Chuvas em Espanha. Um tornado em Bognor Regis, que supostamente é uma estância balnear britânica numa costa solarenga e com aguaceiros amenos. E também não seria suposto os imponentes e centenários carvalhos dos jardins de Versailles, em Paris, serem esventrados como se fossem palmeiras depois da passagem de um furacão. Enfim, a história repete-se por toda a Europa. Em Outubro, inundações inesperadas arrasaram o coração de Gondo, uma aldeia do Sudoeste suíço, e o rio Pó transbordou dos Alpes ao Adriático, causando prejuízos de quase 600 mil milhões de contos. O oposto verificou-se em Julho passado, na Grécia, quando vagas de calor com temperaturas de 42º provocaram secas e trovoadas.
Dilúvios, secas, incêndios, desmoronamentos de terras, ventanias, tornados... é imaginação nossa, ou as condições meteorológicas na Europa estão a piorar?
Basicamente, sim. E a causa é a poluição provocada por gases tais como o dióxido de carbono (CO2) e o metano, que, quando expelidos para a atmosfera, originam um aquecimento global capaz de alterar os padrões meteorológicos. Os peritos em condições climatéricas concordam que os denominados «fenómenos temporais extremos» se sucedem com maior frequência e que o clima mudará drasticamente nos próximos 100 anos.
Os cientistas revelam que, mesmo que os governos e as indústrias mundiais cumpram os objectivos internacionais no que diz respeito à redução da emissão de gases para a atmosfera — o que provavelmente não farão —, não será suficiente para evitar mudanças severas no clima. O único conselho que dão é: habituem-se.

A temperatura vai (mesmo) subir
Um relatório divulgado em Novembro por 27 climatólogos europeus, denominado «Acacia», alerta que a tendência de aquecimento global pode ser irreversível, pelo menos durante o próximo século. Isto significa, segundo eles, que os governos devem começar imediatamente a planear a sua adaptação às novas situações de extremismo climatérico. «Fazemos quase 50 recomendações de planos de acção e pesquisa», revela Martin Parry, cientista da Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha, e editor do relatório, que identifica os efeitos e a adaptação a futuras alterações climatéricas na Europa.
Isto representa, obviamente, uma mudança subtil, mas significativa, nas atitudes tomadas em relação ao aquecimento global. Alguns activistas receiam que o mundo tente adaptar-se a esta tendência de aquecimento, em vez de procurar alterar ou reverter a situação. No passado mês de Novembro, representantes de 160 países reuniram-se em Haia, no intuito de aprovar e pôr em prática o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997. Nesse documento, os países comprometeram-se a diminuir 5,2% das emissões de gases até 2002, em relação aos níveis registados em 1990. Porém, estão longe de alcançar esse objectivo e assistiu-se em Haia a uma troca de acusações mútuas acerca de sobre quem recai a culpa.
No entanto, a adaptação terá de ser bastante eficiente, caso as mudanças previstas por Parry e pelos outros cientistas venham a acontecer. Estes defendem que vai ocorrer um aquecimento generalizado na Europa, com condições mais húmidas a norte e secas a sul. Esta alteração traduzir-se-á em grandes inundações nas zonas nórdicas, enquanto as áreas de agricultura produtiva, situadas a sul, sofrerão com a desertificação. Os Alpes terão menos água em forma de neve, porque esta passará a alimentar inundações súbitas. Os glaciares alpinos derreterão e a tundra — planície sem árvores nas regiões árcticas — dissipar-se-á desde a Lapónia até à Sibéria. O nível das águas do mar Mediterrâneo subirá cerca de meio metro até 2005, inundando áreas costeiras e aniquilando aves e espécies marinhas.
Segundo o Painel Intergovernamental de Alterações Climatéricas, tudo isto ocorrerá porque as temperaturas poderão aumentar mais 6º no século xxi, ou seja, 10 vezes mais do que o verificado no último século. «Quem quer pensar num futuro em que as alterações serão 10 vezes mais rápidas do que as registadas nos últimos 100 anos?», pergunta Tom Wigley, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, do Colorado. «Eu não», acrescenta.

Refugiados do tempo
Os cientistas ainda não conseguiram prever de que forma é que o continente africano será afectado, mas, provavelmente, Sahel tornar-se-á ainda mais seco e propenso à escassez de água e à fome do que hoje, o que se traduzirá num aumento do fluxo de imigrantes africanos famintos para a Europa, conhecidos como «refugiados do tempo». Do Sul desse continente virão também doenças tais como a malária, a febre de dengue e a encefalite, à medida que o tempo quente encoraja a deslocação para norte dos mosquitos portadores de doenças. A água quente transportará mais facilmente a cólera e outras doenças derivadas, que se disseminarão com muito maior facilidade, devido às inundações constantes.
Há quem defenda que o aquecimento global acarretará, no futuro, outra consequência ainda mais paradoxal e catastrófica: o arrefecimento global. À medida que a camada de gelo do Árctico derreter, uma corrente de água fria deslocar-se-á em direcção ao oceano Atlântico norte, podendo dissipar as correntes transportadoras de calor, tais como a corrente do Golfo — que começa no golfo do México, percorre a costa este dos Estados Unidos e culmina na corrente do Atlântico norte —, que aquece as regiões nórdicas da Europa.

Nem tudo são más notícias
Porém, há consenso entre a comunidade científica quanto ao facto de que nem todas as mudanças climáticas serão más. As florestas da Escandinávia e do Norte da Rússia crescerão mais depressa do que nunca, ajudando a retirar o CO2 da atmosfera. «Poderemos ter mais do que uma estação de cultivo nas latitudes nortenhas, que os agricultores poderão explorar para terem mais do que uma colheita por ano», diz Michele Bernardi, agro-meteorologista da Food and Agriculture Organization, em Roma.
É também possível que, apesar do adiamento por parte dos governos e indústrias, as emissões de gases diminuam. Os alemães, consciencializados para os problemas do ambiente, mostraram que simples mudanças no modo de vida podem culminar em reduções significativas dessas emissões, um terço das quais é da responsabilidade das famílias. Reciclar latas e papel, reduzir os aquecimentos, melhorar o isolamento das casas e desligar as luzes quando não são precisas ajudou a Alemanha a reduzir as suas emissões em 18,5% desde 1990, ultrapassando a meta estabelecida em Kyoto. Mas o resto da Europa é mais lento.
Por isso, o melhor conselho é: visto que não teremos barbatanas, há que tirar os guarda-chuvas e as galochas do armário; as tempestades estão aí e o nível das águas aumenta quando menos se espera. Teremos de aprender a viver com isso. Previsões para 2050 De acordo com um estudo de três anos conduzido por uma equipa de cientistas europeus, o aquecimento global traduzir-se-á em mudanças climatéricas drásticas nos próximos 100 anos. As zonas a norte tornar-se-ão mais húmidas e quentes, enquanto a sul as regiões serão mais secas e quentes. O nível das águas do mar vai subir, as inundações vão ser mais frequentes, os tornados atacarão e as florestas crescerão mais rapidamente. Eis o clima da Europa em 2050. Reino Unido Temperaturas amenas, com queda de chuva intensa no Inverno, que provocará inundações. Secas cada três anos. Possibilidade de novas colheitas, tais como uvas e rebentos de soja. Península Ibérica Península ibérica As zonas centrais e a sul estarão praticamente desertas. A cultura de frutos e vegetais será abandonada. Norte de África A seca e a escassez serão cada vez piores, contribuindo para a fuga de milhares de «refugiados do tempo» para a Europa. Itália Inundações repentinas e constantes a norte e desertificação nas áreas do Sul
e da Sicília. França Muitas centrais nucleares serão encerradas durante temporadas muito secas no Verão, devido à falta de água para o seu arrefecimento. O salmão desaparecerá do Loire. Mediterrâneo O nível das águas do mar subirá meio metro, inundando os terrenos alagados e destruindo o habitat de aves pernaltas. Muitas espécies marinhas morrerão. Alpes As plantas de altitude morrerão. Os glaciares vão derreter, causando o colapso dos picos. Deixará de ser possível fazer esqui em estâncias situadas a baixa altitude. Grécia Verões extremamente quentes afastarão os turistas. A escassez de água aumentará, bem como os incêndios nas florestas. Regiões Nórdicas O Inverno tornar-se-á mais ameno. A tundra será substituída por florestas de vidoeiros e de pinheiros em rápido crescimento. Alguém tem ideias melhores? Muitos cientistas gostariam
de encontrar uma solução para inverter esta tendência de aquecimento global, sem reduzirem drasticamente a emissão dos gases que provocam o efeito de estufa. Fique a par de algumas. Sulfatar o mar. Vastas áreas marítimas estão quase desprovidas de fitoplâncton, que elimina o dióxido de carbono. Abastecer essas zonas com uma mistura de sulfato de ferro e de um ácido fraco poderia provocar um rápido florescimento de microrganismos marinhos, que retirariam milhares de toneladas de CO2 da atmosfera.
Objecções. Manipular a natureza em larga escala pode ter consequências imprevistas. Matar as vacas. As emissões de gases produzidos pelo estrume dos animais são uma grande fonte de metano, um gás que pode ser ainda mais poderoso do que o dióxido de carbono. Neste caso, a difusão dos hábitos vegetarianos à escala mundial marcaria certamente a diferença.
Objecções. Politicamente inviável. Espelhos gigantes. Grandes quantidades de painéis brilhantes poderiam ser colocados em órbita, no intuito de reflectirem luz solar suficiente para arrefecer a terra.
Objecções. Seriam precisos muitos espelhos. Grande balão. A ideia dos espelhos poderia ser aplicada a balões, recorrendo a milhões de balões prateados.
Objecções. Seriam precisos muitos balões. Cidade branca. Reflectir para longe o calor, ao pintar os tectos de branco, e utilizar materiais de cores claras e luminosas nas auto-estradas, nos parques de estacionamento e até nos carros.
Objecções. Seria necessária muita tinta. Arremessar fuligem. Largar grandes quantidades de fuligem na estratosfera, para aumentar a camada de nuvens.
Objecções. A fuligem proviria da combustão de materiais, um processo que provoca a emissão de gases.
Posted on 10/26/2005 4:00 PM Comments (0)
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